E quando a dor não é sobre a mordida?
- Danielle Venda
- 12 de mar.
- 3 min de leitura
Relato de uma mãe que sente.
Esses meses estão sendo desafiadores por aqui, as mudanças vieram acompanhadas de grandes crises de desregulação emocional.
Estamos enfrentando desafios na nova escola, tudo novo, muitas emoções pulsantes.
Se eu sinto, ela sente mais.
Em minha vida pessoal desafios acontecendo o tempo todo também, pois a vida é dinâmica, não é mesmo?
Tudo fluindo no mais perfeito mini caos, até que semana passada, mais precisamente sexta feira, a criança pela primeira vez reagiu à raiva se mordendo.
Comportamento esse atípico, pois ela sempre reagiu de maneiras diferentes.
Aquela mordida doeu muito mais em mim do que nela, no exato momento pensei: “ Meu Deus, ela está se automutilando”, “E se ela tiver um transtorno mental grave?”, “ Quanta raiva ela deve estar sentindo para gerar uma dor física?”
Garanto que pensei tudo isso em menos de 20 segundos, mas pensei e me preocupei.
Por mais que eu seja psicóloga e estude sobre comportamentos infantis, ainda sou humana e mãe, e os mesmos pensamentos que passam pela cabeça de qualquer mãe nessa situação, também passa pela minha.
Desde então, ela em situações específicas ainda se morde.
Compartilhei com algumas pessoas, na escola, com uma amiga pedagoga, com outras mães e me tranquilizei para poder observar melhor o comportamento que pode ser uma tentativa de autorregulação emocional e ao mesmo tempo, chamar a minha atenção.
Sabe por que a mordida doeu mais em mim do que nela?
Porque eu me senti impotente frente à essa situação. Eu percebi que não poderia fazer nada e foi a primeira vez na maternidade que me deparei com o vazio da impotência.
“Ah, Dani, mas é só segurar o braço dela!”, claro, isso quando ela fizer na minha frente, mas eu não estou com ela na escola, não posso controla-la durante o sono, não estarei presente em vários momentos e não tenho como controlar e evitar o comportamento, tudo o que posso fazer é orientar, explicar o porquê isso não se faz e posso segurar quando ela fizer na minha frente, mas me deparei pela primeira vez, com a escolha dela.
E posso falar, isso dói. Dói na alma. Dói no corpo. Dói demais.
O que doeu não foi o comportamento, pois ele é comum nessa fase de desenvolvimento, percebi que o que me doeu foi perceber que ela está crescendo e que aos poucos, eu não vou poder mais protegê-la como eu gostaria, nem da vida, nem dela mesma!
A metáfora da semente e do jardim
Imagine que cada criança é como uma semente que chega às nossas mãos.
Quando a semente chega, ela é pequena, frágil e depende completamente de quem cuida do jardim. Então nós preparamos a terra, regamos, protegemos do sol muito forte, tiramos as ervas daninhas e cuidamos para que nada a machuque.
Nesse início, sentimos que temos algum controle sobre o crescimento da planta.
Podemos escolher:
• a terra
• a quantidade de água
• o cuidado diário
• o espaço onde ela vai crescer
E isso é muito parecido com o começo da vida de uma criança.
No início, nós conseguimos regular o ambiente, proteger, acolher, ensinar e ajudar a organizar as emoções.
Mas chega um momento em que aquela semente cria raízes profundas.
Ela começa a crescer em direção ao sol, cria seus próprios galhos, encontra o vento, a chuva, as estações do ano. E por mais que o jardineiro continue ali, ele já não consegue controlar tudo.
Ele não pode:
• impedir o vento
• controlar a chuva
• decidir para onde cada galho vai crescer
A planta agora segue o seu próprio ciclo de vida.
E é exatamente nesse momento que surge um sentimento muito humano nas mães:
a sensação de impotência.
Percebemos que não podemos proteger nossos filhos de tudo.
Eles vão viver:
• frustrações
• encontros
• perdas
• descobertas
• escolhas próprias
Assim como a planta precisa do vento para fortalecer o caule, as crianças também precisam viver experiências para fortalecer quem elas são.
Compartilho esse relato real para refletirmos quantos medos carregamos na maternidade no qual não temos nenhum controle.
Viver exige coragem, ser mãe envolve permitir que as nossas crianças cresçam saudáveis e vivam uma vida de oportunidades, mas ajudamos elas a construírem isso agora, desde a primeira infância.
Por isso o acompanhamento Psicológico para mães é essencial para que os medos, crenças, traumas, expectativas e outros fatores, não o desenvolvimento saudável das crianças por superproteção, medo de repetir padrões familiares ou até crenças que não correspondam a forma como queremos educar.
Cuide-se, cuide da sua saúde mental para que possas cultivar o melhor que há na sua criança.


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